Conheça a Formula SAE

Neste final de semana rolou a competição Formula SAE Lincoln, nos EUA. Equipes e estudantes de vários países marcaram presença, porém como a maioria das pessoas nunca ouviu falar sobre a Formula SAE resolvi explicar de maneira bem simples o que é a FSAE e como são realizadas as suas competições pelo mundo.

Primeiramente quero iniciar dizendo que a intenção deste texto é explicar o que é a categoria Formula SAE de maneira bastante simplificada, porém não prometo que serei breve.

Durante o ano farei outras publicações aqui no Ser Veloz falando sobre eventos da Formula SAE ao redor do mundo e sobre seus resultados (porém das outras vezes prometo que serei mais breve).

A categoria Formula SAE (também popularmente conhecida como Formula Student fora do Brasil) teve início na década 70 nos EUA e é a principal categoria do automobilismo de nível universitária. Organizada pela SAE (Society of Automotive Engineering) a competição está presente no mundo todo com eventos nos EUA, Inglaterra, China, Alemanha, Áustria, Itália, Japão, Brasil e muitos outros países. Em 2010 teve início a Formula SAE Elétrica (inicialmente na competição Alemã e Austríaca), hoje também presente nos EUA, Itália, Espanha e Brasil.

 

FSG12 in Hockenheim

Competição Alemã (Formula SAE Germany), anualmente realizada em Hockenheim

Neste link é possível acompanhar em quais países a Formula SAE está presente e quais equipes já conquistaram competição: (link está em inglês)

http://en.wikipedia.org/wiki/Formula_SAE

A Formula SAE é regida por um regulamento mundial lançado todo ano pela SAE (sempre no segundo semestre) com todas as regras e exigências que as equipes e seus respectivos carros devem cumprir. O regulamento atual (2015 Formula SAE Rules) contém 178 páginas totalmente em inglês (link abaixo).

http://students.sae.org/cds/formulaseries/rules/2015-16_fsae_rules.pdf

Vale ressaltar que TODOS os membros das equipes de Formula SAE (inclusive pilotos) precisam possuir algum vínculo universitário (graduando ou mestrando). Também não é possível que uma faculdade seja representada por duas equipes e nenhuma equipe pode competir com mais de um carro, ou seja, cada faculdade possui uma equipe e cada equipe possui apenas um carro. Os estudantes devem se organizar e construir um carro por ano e competir com ele.

Não é raro encontrar ex-membros de equipes de Formula SAE que continuam suas carreiras (depois de se formarem engenheiros) em outras categorias do automobilismo como Nascar, Indy, Formula 1 ou LeMans. Entretando, a intenção deste post é explicar como funciona uma competição de Formula SAE, então vamos lá..

Ross Brawn

Ross Brawn, patrono da competição inglesa (Formula Student UK), realizada anualmente em Silverstone.

 

A competição é dividida em dois tipos de provas: as provas estáticas e provas dinâmicas.

Prova de Design 150
Custo e Manufatura 100
Apresentação de Business 75
Aceleração 75
Skidpad 50
Autocross 150
Eficiência Energética 100
Enduro 300
Pontuação Total 1,000

 

Dentre as provas estáticas estão:

– Prova de Custos: evento onde é considerado os custos de todos os componentes do veículo se ele fosse produzido em larga escala. O carro com o menor custo recebe 100 pontos e as outras equipes são pontuadas usando o custo do carro mais barato como referência.

 

– Apresentação de Business: essa prova simula uma apresentação de projeto de negócio para um grupo de investidores. As equipes apresentam propostas e uma projeção de lucros e benefícios para um fictício grupo de investidores, este grupo é formado por profissionais da indústria automotiva (engenheiros, diretores, gestores de montadoras) que atuam como juízes voluntários na competição. A equipe com a melhor apresentação recebe 75 pontos.

Chalmers

Apresentação de Business da equipe Chalmers Racing no FSG de 2013.

 

– Prova de Design: esta sem dúvida é uma das provas mais nobres da competição (junto com AutoX e Enduro). As equipes devem apresentar para juízes (profissionais da indústria automotiva) como foi todo o processo de projeto, construção e testes do veículo. Trata-se de uma prova extremamente técnica com apresentação de dados específicos (e considerados sigilosos pelas equipes) e muitos números que justifiquem as escolhas das equipes, como por exemplo: rodas aro 10′ ou rodas aro 13′, utilização de um determinado material para a construção de uma peça específica (ligas de alumínio, aço, materiais compósitos, materiais cerâmicos, polímeros, entre outros), porque a geometria de uma peça é assim e não assado, e por aí vai. Esta prova vale 150 pontos para a equipe vencedora.

Global

Juízes avaliam o carro da Global Formula Racing (GFR)

Testes de Segurança:

Antes que a equipe coloque seu carro na pista ela precisa passar por 4 testes de segurança (que não possuem nenhum sistema de pontuação durante a competição): inspeção técnica, prova de freio, tilt table e inspeção de ruído exclusivamente para os CV’s (combustion vehicles) e o rain test exclusivamente para os EV’s (electric vehicles).

– Inspeção Técnica: os juízes faram uma inspeção para checar se TODOS os componentes do carro (e da equipe) estão dentro das regras. Desde espessura de tubos do chassi (se a escolha do chassi foi tubular é claro), validade dos macacões e capacetes dos pilotos e se eles são homologados pela FIA, teste para ver se os pilotos conseguem soltar-se dos cintos e sair do carro em menos de 5s (em caso de incêndio) e até verificação da validade dos instintores de incêncio que as equipe possuem nos boxes.

– Teste de Freio: essa prova é bem simples. O carro deve ser conduzido em uma reta até cruzar uma linha, ao cruzar a linha, o piloto deve pressionar o freio de maneira que as 4 rodas fiquem travadas até o carro parar.

– Tilt Table: o carro é colocado em uma mesa e é inclinado em 45º horizontalmente. O carro não pode em nenhum momento descolar nenhuma das rodas da mesa e nenhum fluído pode escorrer do veículo (fluído de freio, água do radiador, por exemplo).

UBC

Carro da Formula UBC (University of British Columbia) na tilt table

– Teste de Ruído: o carro se mantém estático durante todo o teste, onde será medido o volume do ruído do escape do veículo (mais precisamente à 0.5m do escape). O volume não pode ultrapassar 110dBC.

 

– Rain Test (Teste de Chuva): o veículo fica estacionado enquanto é submetido a uma simulação de chuva de duração de 2min. Ao final da simulação de chuva, é verificado o dispositivo que monitora o isolamento do sistema elétrico do veículo (se o dispositivo reage ou não), os juízes esperam novamente 2min e realizam uma nova medição. Se o dispositivo não reagir, a equipe passou de maneira bem sucedida pelo teste.

rain testUnicamp E-Racing realizando o rain test em Lincoln (EUA – 2014)

Após passar por todos os testes de segurança e receber os 4 selos de aprovação (um selo para cada teste) é hora de colocar os carros na pista e partir para as provas dinâmicas:

 

– Prova de Aceleração: Uma reta de 75m, o carro começa completamente parado. Quem completar os 75m com o menor tempo recebe os 75 pontos. As outras equipes recebem pontuação em comparação ao tempo do primeiro colocado. Ou seja, se você ficar 0.001s atrás do primeiro, fique tranquilo, você não terá vencido, mas vai levar 74.9 pontos pra casa. Além disso você tem 4 tentativas e apenas o melhor tempo será computado (2 tentativas para cada piloto). Esse sistema de pontuação se aplica a todas as provas dinâmicas.

 

– Skidpad: As equipes precisam completar um 8 na pista, duas voltas para um lado e duas curvas para o outro. A equipe vencedora leva 50 pontos.

 

– AutoCross ou AutoX: uma volta rápida em um circuito. Após as 4 tentativas, o carro que completou a volta mais rápida vai levar os 150 pontos.

 

– Enduro: nada mais é do que a simulação de uma corrida. São 22km, cada piloto da equipe percorrendo 11km, a equipe com o melhor tempo vence e leva 300 pontos. Essa prova é bastante cruel, se você não completar os 22km você simplesmente não pontua. Ou seja, percorrer 21.9km e seu carro quebrar, você acaba de abrir mão da prova mais valiosa da competição, e esta prova exclusivamente, você possui apenas 1 tentativa.

 

– Eficiência Energética: após a prova de enduro será medido o consumo de combustível (dos carros com motores à combustão interna) e consumo de energia (para os carros com propulsão de motor elétrico). A equipe com melhor eficiência energética recebe 100 pontos. Os mais atentos perceberam que a equipe que não completar o enduro, não deixa de pontuar 300 pontos, mas sim 400 pontos.

 

Ao final de todas as provas ocorre a premiação final e os resultados da competição são divulgados.

Mito

Unicamp E-Racing campeã do Formula Electric em 2012 com 985 pontos!! (Recorde em uma competição FSAE)

 

Sei que o texto ficou bastante extenso, mas garanto que é impossível resumir a Formula SAE mais do que isso.

Membros e ex-membros da Formula SAE que estiverem lendo: peço desculpas pela enorme simplificação na explicação das provas e de alguns pontos do regulamento, mas o objetivo aqui é informar leitores que nunca ouviram falar da competição.

Você poderá acompanhar os resultados das principais competições de Formula SAE no mundo aqui no Ser Veloz. Em breve divulgarei aqui o calendário dos principais eventos de Formula SAE de 2015.

Até mais,

R.S.

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